quarta-feira, 27 de julho de 2011

Novidade efêmera

Compro canetas novas e passo a escrever só com elas. Quando um sapato é novo, parece que apenas ele combina com qualquer coisa que eu vista.  E uma roupa nova torna-se repetitiva, de tantas vezes que é usada, pois só ela fica atraente no guarda-roupas.
O que escolher no guarda-roupas da vida? Com qual cor de caneta assinar o veredito?caminhar de pés descalços sempre pareceu mais atraente..
Querer sempre mais sempre foi um problema. Assim como achar sinônimos. Ou querer definir o que ninguém  consegue explicar. O que parece não ter fim

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A música acabou e eu não ouvi o trecho que queria. Aquela parte que, quando toca, sempre me faz lembrar. E eu coloquei a música de propósito, por que eu quis lembrar de ti. Eu quis, hoje. Amanhã pode ser que eu nem lembre a tua existência, que nem passe pelos meus pensamentos.
A música passou. Você não.
Nunca passa

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Escrevo sem saber o que digo, ouço sem saber se gosto.
Não sei dizer nem que sim, nem que não.
Em tempos de incertezas, tudo o que vejo é desilusão.
E eu ainda não encontrei a saída

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O tempo

- Trinta, trinta e um, trinta e dois...
- Ei, você pode contar mais baixinho?
- Tá bom, mamãe.  E depois que o sinal abrir, e a gente passar, eu paro de contar.
- Você sabia que sessenta é um minuto?
- O que, mãe?
- Um minuto tem sessenta segundos, então se você contar até sessenta um minuto terá passado!
- Quero contar o tempo!
- Faz assim: fique olhando as horas no celular, quando esse número aqui mudar você começa a contar do um até o sessenta. Quando chegar lá, o numero aqui terá mudado eu minuto se passado.
- Um, dois, três... cinqüenta e cinco, cinqüenta e seis..
-Ei mãe, o número aqui do celular já trocou e eu ainda não cheguei no sessenta.. O meu minuto ainda não acabou!
- Você contou devagar demais
- Devagar? Mas eu não posso decidir a velocidade do tempo? O tempo é meu! Eu tô contando ele!
- Dá pra contar o seu tempo, sim. Mas enquanto você está contando, ele pode passar e você nem notar..

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Distante

Guimarães Rosa ficou bege, Mario Quintana teve palpitações. Nem Chico Buarque quis ver a banda passar. Tudo por que Mariana escreveu uma poesia..um poema(?)



Terra. Terremoto. Teto.
Tia Tema Tatuagem Transversal.
Tainha Traíra Tramandaí Tapera.
Trompete Trombone Tamborim.
Tempo Tempo Tempo
Tranqüilidade
Tenho tido tiques,
Torque.
Total.Transcendental
Tchau.

Até quando, ein? tudo isso
Ah, tempo
Amigo perdido
Amor bandido, invisível
Áustria ou Austrália?
Acento Agudo
Antídoto. Amido. Amianto.
Amuleto do azar.
Até breve
Acabou?

Métrica Metro Micro Mil
Medo
Medida  Medido Mensurável
Medir .
Morder. Mão.
Machucar?
Manipular o destino
Morrer por causa do acaso
Me desfaço e perco, te perco.
Mais além, além do horizonte.

Lamento as lamentações.
Labuta fajuta
Louvor
Louros
Loucos
Límpido
Lindo
Lá, daquele lado naquele lado
Logo ali
Longe.

terça-feira, 3 de maio de 2011

pontos de vista no outono



Por que os relógios tem uns números maiores que os outros?Ok, sem generalizar. Por que este relógio, aqui, tem alguns números que se destacam? Quem disse que o 12 é mais importante que os outros? De onde vem esse conceito? Apenas quatro números, aqui, se sobressaem. São quatro pontos exatamente colocados, marcados. Mas por que não destacar o 2, o 5, o 7 e o 11, por exemplo?
Esse relógio, aqui, tem os números, além de destacados, em outra cor, diferente dos demais. Vermelho, de sangue. E nem é pra combinar com o lugar. Eu acho.
Por que destacar os números, que ali são horas? E por que estas horas?
Injusto. 



A cadeira essencialmente posicionada onde se pode ver várias árvores, quando sentado nela. A mesma árvore pode ser vista por duas janelas.
E hoje eu vejo um céu azul, limpo, quase sem nuvens. o mesmo vento que balança os galhos das árvores levou as nuvens pra longe. Levou também você pra longe – por que é o mesmo vento de ontem.
Ventava ontem?
 e eu nem sei se você levou. Você levou?
Levou-se? Levou-me?
E se foi, será que chegou?


Eu tinha desistido de te procurar por aí, sei que não estás em nenhum outro corpo, coração, rosto ou barba.
Ao olhar pro lado, no fatídico dia em que o vento balança, sem piedade, as folhas da árvores, eu te vejo personificado nele – alguns anos mais velho, obviamente sem o mesmo espírito. É outra alma. Uma aura diferente, totalmente.
Mas este corpo me lembra você. E este corpo parece me querer. Mas ele não é você, então eu não o quero.
Seria a minha decadência.  
A realidade é triste, perturbadora, então vem a ilusão como uma válvula de escape. Mas ilusão parece, e pode, ser algo triste. Eu prefiro a imaginação, mesmo eu sendo uma imagem sem ação.
Eu sou isso. E isso me convém.
  



domingo, 24 de abril de 2011

Três

História estória dos três que se mistura. Que se misturam. Quem é um quem é outro? Quem é uma e quem é outro? Semelhanças e diferenças jogadas no liquidificador da vida, e do destino. Aquele que alguns dizem que não se escolhe.
Um desenrolar enrolado, que não tem fim. Que não teve ainda. O fim  vai sendo escrito, a cada novo encontro, a cada nova atitude, a cada nova música composta, tatuagem feita ou texto publicado.
Encontros, erros, tombos, porres, fumaça, cigarro, chocolate, desilusão ortográfica, gastronômica ou somente a boa e velha que envolve sentimentos.
Aquele, encontro, prometia.

Outono é uma estação duvidosa,  faz frio e calor no mesmo dia. Mangas compridas e regata. Amor e ódio. Saudade e tristeza.
Longe daquilo que a interessava, ela apagava-se do mundo. Ao seu redor, nada parecia ter importância. O contexto onde estivera acostumada, onde vivera o seu sempre, era agora desprezível. Por sua conta. E risco.
Ele consumia-se na ansiedade e nos cigarros. Como causa e efeito. Sua alma tinha formato de clave de sol.  Sozinho nas madrugadas afora, sua voz era sua escrava. Bem como seus dedos, que procuravam por uma nova melodia. Uma que agradasse, que fosse sincera e intensa. Que marcasse.
E ela queria reinventar. Sua vida, seu cabelo, sua casa. Sabia que a mudança era necessária mas não sabia como nem por onde começar. Sentia que faltava as ferramentas. Não adianta ter nas mãos um diamante e não saber lapidá-lo.
 Ele então, naquela noite de outono  cantava solitário pra uma pequena multidão, por amor e não pelo dinheiro. Queria ser ouvido. Ser lembrado, ou não ser esquecido.
Elas o ouviam. Separadamente, cada uma em uma mesa. Uma à frente do palco, prestando atenção em cada acorde tocado no violão e a outra um pouco mais atrás, disfarçadamente encolhida na cadeira.
Três existências completamente diferentes ali estavam, dividiam o mesmo ambiente. E não sabiam. Não sabiam-se.
 A que estava mais ao fundo notou que mais alguém, além deles, sabia a letra daquela canção. Impressionou-se. Aquela era uma canção linda e, quase, desconhecida mas não para eles, os três que ali estavam, no mesmo lugar, no mesmo ar.
 Quem explica esse cordão invisível que une as pessoas? Sim, por que não dá pra contar com a sorte, sair de casa pra comprar pão e encontrar alguém relevante que tomará tanta importância em sua vida e você nem se dará conta, tamanho envolvimento. Deve ter algo que une, e isso eu chamo de cordão invisível. Uma hora você se aproxima, atrai, encontra ou seja lá o que.

Envolvidos pela música e pelo desejo, suas vidas se entrelaçaram. Eram agora como um triângulo, que só existe tendo três. Não dá pra ter um a menos. Não pode, e eles não conseguiam.
Proporção sem tamanho, sem perceber estavam ali, juntos. Apesar de tudo, apesar do resto do mundo.
Até que chegaria o momento em que um deles perguntaria: o que estamos fazendo das nossas vidas?
Mas por que fazer perguntas que não tem respostas? E pior: com quem está a solução?